Purity

12 Oct

São as ações do passado que controem o presente que logo vira também passado e delimita o futuro. A infância e a juventude são fundamentais na construção do caráter. Mas é a culpa e consequentemente o arrependimento que mudam o rumo da existência. Mais uma vez é sobre essa base que Jonathan Franzen se debruça no novo romance Purity. A narrativa é longa e como em Liberdade ou em As Correções vai e volta no passado na tentativa de explicar o presente.
Em Purity, o recurso constrói duas grandes narrativas paralelas que vão e voltam no tempo não só pra mostrar onde se dá o encontro dos personagens mas para explicar o presente pelo passado. Apesar de Purity, ou Pip, dar título ao romance, os dois personagens principais são os antagonistas, Andreas Wolf e Tom Aberrant. O alemão Andreas, nascido no leste, filho de figuras importantes do governo comunista, é um carismático whistleblower com uma obsessão por garotas novinhas. Absolutamente inspirado em Julian Assange, Andreas é tão caricatura quanto realidade. É sedutor e hipócrita. Critica a opressão do comunismo mas usa a influência dos pais poderosos para se safar. Quando o muro cai participa de uma espécie de “comissão da verdade” que analisa os arquivos da Stasi, bradando contra a opressão do sistema em entrevistas, mas o que lhe importa realmente é ter a certeza de que tudo o que se refere a ele já não existe mais. Quando a internet se populariza passa a codificar e logo a espionar. Em pouco tempo é rival de Assange no posto de herói da verdade comandando um séquito de hackers. Expõe os segredos alheios mas guarda todos os seus. Como diz a personagem, não por acaso jornalista investigativa, que o desmistifica: “guardar segredos é civilizatório”. Mas não para quem finge ser herói. Franzen é implacável com figuras como Assange e Snowden, reduzidos a espiões hipócritas que não passam de moleques velhos – o alvo dele é Assange – mimados e neuróticos.
O outro protagonista é Tom Aberrant, jornalista americano filho de mãe alemã do leste(e mais tarde o econtro dos personagens se dá por esse motivo) e pai americano. Idealista mas nem tanto. Tem a vida mudada quando começa um romance com Annabel, jovem artista incapaz de criar algo consistente que o atrai tanto pela beleza e esquisitice (eles se conhecem quando ela ela faz um manifesto feminista onde se enrola, nua, em papel) quanto por ser filha de um bilionário. A moça culpa o pai pela morte da mãe e se recusa a viver as custas do dinheiro “sujo” mas não se desfaz dos vestidos caros nem das garrafas de vinho que custam um salário e é isso que no início mais atrai o tão correto Tom. Por fim se apaixonam de verdade e vivem um amor doentio, Annabel só funciona na lua cheia.
É em Berlin que os dois protagonistas se esbarram e criam o elo, a partir de um crime, que os unirá no presente e no futuro. Diferente dos outros romances de Franzen, Purity vai além da construção emocional dos personagens com base nas relações familiares. O romance tem uma narrativa de livro policial, o cerne é um crime e a culpa que dele decorre, e fôlego para quase 600 páginas mas, no fim, o que importa – e aqui ele volta a ser o Franzen de sempre – é dissecar e compreender como o caráter se molda pelas relações familiares. Tanto o “bonzinho” Tom quanto o “malzinho” Andreas são puras construções das neuroses familiares.

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