Archive | November, 2014

É Natal!

25 Nov

Vida na Suíça:

-Me-u de-us! Olha isso! A gente precisa disso!

-Noooossa! Peraí vou ver quanto custa.

-Pensa como ficaria no terraço, naquele pedaço bem onde não tem nada.

– Ish… não dá. É o preço de uma bicicleta nova.

– Mas olha a etiqueta e veja se é da China ou da Alemanha. Se for da Alemanha vale a pena, vai durar.

Saímos eternamente frustrados do mercado. O Papai Noel inflável de cinco metros ficaria perfeito no nosso apartamento. Era só isso o que faltava. Depois do inflável instalado poderiamos morrer em paz.

Tudo começou há seis ou sete anos com uma singela árvore de Natal. Criança teeeeem que ter Natal, não importa a religião.

Bolas vermelhas. Precisa das douradas também. Papel laminado. Luzes. Mais luzes. Estrela no topo. Estrela com luzes no topo. Dois anos depois passamos da maconha ao crack ao comprar, além de uma árvore maior, um trenó puxado por renas iluminadas e um Papai Noel bagaceiro que foi pendurado na janela. Mais um ano e estávamos tomados pelo vício. Arrancamos o Papai Noel que estava pendurado em uma escada subindo por uma das janelas e o colocamos sentado no trenó. Lindo. Mas ninguém via o trenó porque, claro, moramos num terraço e só os apartamentos dos prédios mais altos conseguiam admirar nossa decoração. Então no Natal seguinte grudamos umas luzes numa rede de proteção de um lado do apartamento. Luzes azuis. Mas faltava o outro lado. Compramos mais luzes e fizemos um “ninho” para o trenó com o Papai Noel.

E começamos a enlouquecer. Teve ano que meu marido ficou quatro horas pendurado no terraço, temperatura abaixo de zero, para literalmente contornar o prédio todo com luzes. Os vizinhos adoraram. O incentivo fez com que, um ano depois, além das luzes azuis de um lado, o trenó com o Papai Noel do outro e o contorno do prédio, colocássemos uma cascata, sim uma cascata de luzes que descia pela fachada do prédio e ainda o perfil de renas e bonecos de neve na fachada. A árvore de Natal só crescia, ocupando um terço da sala e riscando o teto, e agora não era mais enfeitada só com bolas, luzes e papel laminado. Fadas, borboletas, estrelas, sinos, pedras coloridas, bonequinhos de madeira, soldadinhos, bailarinas, ursinhos, veadinhos, sapatos e bolsas em miniatura e qualquer tralha fazia parte da decoração. Tinha vela acesa por toda parte. Presépio, uns dois. Guirlanda, uma em cada porta. Tínhamos que comer encolhidinhos para não esbarrar em nada. As viagens de fim de ano ficaram para trás, o décimo terceiro começou a ser engolido pela decoração.

A gente fazia o tradicional passeio a pé para ver as decorações de outras casas, não exatamente para admirar mas para invejar, comparar e ver o que faltava na nossa. Pegávamos o carro e subiamos a montanha a fim de ver o apartamento de cima. Uau! Mas sempre faltava alguma coisa. E a gente comprava.

Até que um dia chegou uma conta de luz astronômica e a gente entrou na rehab. Tristeza.

Mas esse ano a gente decidiu que não vai viajar…

Kinder

22 Nov

Vida na Suíça:
Diálogo entre duas crianças de 10 anos.
– Você não liga que o X te chame de macaco?
– Eu não. Ele é meu melhor amigo.
– Mas você sabe que é muita falta de respeito, né?
– É. Eu sei.
– Ele te chama de macaco pra deixar claro que ele é quem manda nessa amizade, pra te deixar pra baixo.
– Pode ser. Eu não ligo.
– Próxima vez que ele te chamar de macaco, lembra de mim. Pensa que eu te acho bem melhor do que ele. Daí você ri por dentro.
-:)

Seu pai é traficante, o meu é detetive

7 Nov

Uma semana antes a polícia havia prendido dez integrantes da máfia calabresa. No jornal das oito, um vídeo feito com uma microcâmera escondida, mostrava uma reunião da cúpula da mafia italiana na Suíça. Gente poderosa cheia de mortes sobre os ombros. A reunião era na pizzaria de um deles. Nem todos foram presos. Todos tinham (tem) profissões que suscitavam nenhuma suspeita. Um dono de pizzaria, um operário de fábrica, um dirigente de um centro de acolhimento a imigrantes.

” – Para um pouquinho mais trás, assim fica muito na cara. Olha aí. Tá vendo?
– Eu não acho, não. Não tem nada demais. A casa é grande mas normal.
No banco de trás a criança, olhos grudados no iPad clama.
– Que coisa chata. Vai demorar?
– Não, é só um minutinho. Então, quem você conhece que mora numa mansão dessas?
– O R. W. mora.
– Mas o R. W. é CEO de uma multinacional, imagina o salário dele! E outra: eles têm babá e empregada. Quem aqui tem babá e empregada?
– Todas as brasileiras ricas. E as russas.
– Mas ele é da Italia! Da italia!
– Raciocina comigo: o cara é cafonão, a mulher vem do país mais pobre do leste europeu, ela é mega perua, eles moram numa mansão e têm empregada e babá. É normal?
– Olha, o comércio pode dar bastante dinheiro.
– Meu! Que comércio? O cara vende alisante de cabelo brasileiro e ficou rico desse jeito? Quem na Suíça usa alisante de cabelo fora uma meia dúzia de brasileiras e caribenhas?
– Sei lá. Deve ter salão que compra.
– Ok. Mas aí a ter uma mansão, babá e empregada…
– Isso é preconceito!
– Não é preconceito, só estou juntando as peças.
– Saaaaaaaaco. Vamos embora. Vai demorar?
– Peraí, querida.
– O que a gente tá fazendo aqui perto da casa da minha amiga?
– Nada. Estamos vendo como a casa é bonita.
– Então… pensa. creme alisante do Brasil, italiano da Calábria, conexão na Moldávia, mansão… Entendeu?
– Não!
– Já pensou que nos potes de alisante pode ter pasta de cocaína?
-Que viagem…
– É óbvio, é claro! Ele é traficante! Ele é da máfia calabresa! Ele traz a pasta nos potes do Brasil, a mulher é a conexão com a mafia do leste europeu, ele distribui pela Europa.
– O que é traficante? Ai, que saco… vamos embora?
– Traficante é uma profissão de comércio, de vender umas coisas.
– E o pai da minha amiga faz isso? Cool!
– Você não vai falar nada pra ela, né?
– Por que? Não pode falar?
– Melhor não.
– Vou falar! Vou falar! Se a gente não for embora agora, amanhã eu vou falar que meus pais ficaram escondidos olhando a casa dela e que minha mãe falou que o pai dela é trafi… traficoin… como é mesmo a palavra dessa profissão?
– Comerciante.
-Você falou outra coisa.
– Não, xuxu, eu disse comerciante mesmo. Vamos embora, outro dia a gente conversa sobre isso.”
Três dias depois o homem toca a campainha da minha casa com um saco enorme de mexericas. Eu abro, ele beija o dorso da minha mão. Diz que trouxe especialmente pra mim as mexericas da Calabria, dá uma piscadinha de olho e vai embora.
Nunca mais nos vimos.

Image

De volta

6 Nov

CIMG0452(1)

Romance, romance, romance

6 Nov

Todos os meus livros (romances) estão na Amazon ou na Apple store, livraria Cultura, Saraiva e Google Plays

http://www.amazon.com.br/s?_encoding=UTF8&field-author=Claudia%20Grechi%20Steiner&search-alias=digital-text

 

Maludula e Abdullah

6 Nov

Maludula quase não se vê. Primeiro porque pouco sai à rua. Segundo porque quando sai está coberta de pano até o chão. Sobra o rostinho redondo emoldurado por mais uma camada de tecido preto. Abdulahh está sempre na rua. Não fala com ninguém. Primeiro porque não fala alemão. Segundo porque não quer, anda rápido, olha pra lugar nenhum e não diz bom dia pra ninguém. Moram no predinho cinza mais feioso do bairro, o de janelas pequenas, No verão enchem a escadinha lateral de gerânios, no inverno ninguém os vê. Vieram do Afganistão, ninguém sabe como o que faz parte do bairro acreditar que são terroristas e outra parte, milionários fugitivos. São refugiados políticos e como refugiados têm suas histórias bem guardadas.
O grupo se encontra no território da igreja católica que cede seu espaço para organizações de meninas (e meninos) mais velhas realizarem atividades com as mais novas. Desde brincadeiras, jantares (elas aprendem a cozinhar, graças a deus!), teatro, shows de música, artesanato até a introdução de atividades de cidadania (recolher papel, lixo, reciclar vidros, pets etc).
“Seria bom pra sua filha participar pra aprender a Língua. Essas atividades socializam e funcionam como aulas extras de alemão”
” She don’t go. She don’t go. Muslim, muslim, muslim”
“Mas não tem nada a ver com religião. É só que a igreja cede a infra deles pras garotas. Tem meninas de todos os lugares e de todas as religiões, inclusive as sem religião.”
“Ah… this is not good, not good”.
Ele cedeu e a menina acabou sendo liberada. Dois anos depois,quando todas fizeram o teste para poder pilotar bicicleta no trânsito, ela apareceu de cabeça baixa. “Não posso fazer o teste, não tenho bicicleta”. “Não tem problema”. Ela foi embora de cabeça baixa,
Uma semana depois apareceu toda feliz e orgulhosa com uma bicicleta semi nova mas tão valorizada como uma novíssima e cara costuma ser . As meninas fizeram uma vaquinha ( e a igreja completou… mas isso a gente não disse pro pai).

Gian Luca

6 Nov

“A gente está juntando dinheiro pra uma viagem da escola. Você pode ajudar?” Atrás da mesinha repleta de bolos caseiros, muitos deles desmanchando sem forma, outros esfarelando sob a fórmula errada, está o menino que nunca mais eu tinha visto.
“Gian Luca! Quanto custa o pedaço de bolo?”.
“Quanto você quiser pagar”.
“Você tá bem?”.
Com um sorriso ele respondeu: “tô”.
Anos atrás…
“esse menino é tão bonito que podia ser modelo, sério… com esse rosto ele ia ganhar uma grana…”.
“Você não sabe?”
“Não sabe o quê?”.
“Ele talvez vá parar de estudar”
“Mesmo? por que?”
“Ele não está bem, tem tido crises de pânico. Você não sabe, né? Está começando a se reaproximar do pai. O pai tá na prisão”
“Poxa… não sabia. Que difícil. Ainda bem que ele tem a mãe, ela é legal com ele?”
“O pai tá na prisão porque matou a mãe durante uma briga. Eram os dois drogados. Ele está morando com os avós, italianos que chegaram na Suíça pra ajudar o neto. Eles não falam alemão, ele não entende direito italiano. Talvez ele vá pra Italia com eles, talvez ele fique aqui pra continuar estudando”
Ele ficou ❤