Estrangeiro

27 Mar

A vizinha morreu. Antes do Natal começou a passar mal. Com mais de noventa anos, todo mundo sabia que quando ela tivesse uma doença séria, dificilmente escaparia. Pegou uma pneumonia no inverno. Ficou dias no hospital e menos de um mês sendo cuidada feito bebê numa casa para idosos, voltou para o hospital e o coração fraquinho não aguentou. Morreu.

De abril a outubro era só sair na rua para encontrar a Senhora. Cuidava com paixão do jardim. As roseiras, enormes, eram seus xodós. Parar para conversar com a Senhora significava tempo. À vezes muito tempo. A Senhora desandava a falar e não parava mais. Nos últimos tempos, reclamava da saúde. Estava difícil para respirar, as pernas doíam, o coração palpitava de um jeito estranho. Mesmo assim ela ainda plantava, regava, colhia, ía e voltava do supermercado carregando as compras sozinha. Não tinha filhos, nem netos. Amava mais que tudo, talvez bem mais que o jardim, a menina portuguesa que passava as tardes no jardim lhe fazendo companhia.

A Senhora adorava as crianças da vizinhança. Falava com todas com carinho, perguntava sobre a escola, o que elas gostavam de fazer, do que elas brincavam. Oferecia flores às mães. Difícil passar pela casa da Senhora sem levar umas tulipas, um buquezinho sei lá do quê, umas rosas enormes cor de rosa.

Hoje passando pela casa da Senhora senti um aperto no peito. Doeu olhar aquele jardim florescendo e não ver a Senhora sorridente com suas costas curvadas e seus vestidinhos elegantes, já bastante puídos, exibindo com orgulho as primeiras flores da primavera. Mas mais ainda, doeu pensar que não estou perto da minha avó enquanto ainda lhe resta um pouco de memória não engolida pelo Alzheimer. Sabe se lá quanto tempo ainda ela tem com lucidez.

Olhar o jardim sem a Senhora foi também a contestação de que eu não estava perto do meu pai quando o carro dele deu perda total. Nem quando ele teve um derrame. Nem quando ficou dias no hospital e quase morreu. Também não estava perto quando minha mãe começou a envelhecer. Não estava perto quando nasceu a filha da amiga, nem quando a filha da outra amiga ficou doente, nem quando os melhores amigos de tantos anos precisaram. E também não estava perto quando os outros comemoraram qualquer coisa. Não dividi nenhuma alegria, não abracei, não fiquei junto a não ser por alguns dias do ano.

Morar fora deve ser assim para quase todo mundo e por isso que no fundo, todo mundo um dia sonha em voltar a terra natal. Não conheço um brasileiro que não sonhe com o dia em que possa morar metade do ano Brasil, de preferência no inverno europeu; e metade do ano na Europa.

Por mais que se forme uma nova família, novos amigos; deixa-se uma vida e todo mundo que fazia parte dela, para trás. As lembranças começam a se parecer com um filme, às vezes tudo muito nítido, às vezes muito embaçado. Assim como a vida no presente. Mais fácil chorar pela Senhora do que pela avó. Por que daí ficaria difícil demais.

A Senhora das rosas *

Die Nachbarin ist gestorben. Vor den Weihnachten ging es ihr schlecht. Sie war über 90 Jahre alt und alle wussten, dass es schwierig werden würde bei der nächsten schwereren Krankheit. Sie hatte eine Lungenentzündung im Winter und lag für Tage im Spital. Danach war sie über längere Zeit in einem Altersheim auf fremde Hilfe angewiesen, kehrte wieder zurück ins Spital und dann versagte ihr schwach gewordenes Herz. Sie starb.

Von April bis hin zum Oktober musste man nur auf die Strasse und schon traf man die Senhora. Mit Liebe pflegte sie ihren Garten. Die grossen prächtigen Rosensträucher waren ihr Stolz. Am Haus der Senhora anzuhalten bedeutete, dass man Zeit übrig haben musste. Manchmal viel Zeit sogar. Die Senhora begann das Gespräch und hörte nicht mehr auf zu reden. In der letzten Zeit klagte sie des öfter über Schmerzen und Krankheiten. Es fiel ihr immer schwerer zu atmen, die Beine schmerzten, das Herz klopfte ab und zu seltsam. Dennoch pflanzte sie rege, wässerte fleissig und pfückte, sie ging auch noch in die Läden und trug die Einkäufe alleine nach Hause. Sie hatte weder Enkel noch Kinder. Mehr als alles aber liebte sie, wohl mehr als ihren Garten, ein portugiesisches Mädchen. Lange wohnte es im oberen Stock des Hauses und später, als es weggezogen war, kam sie öfters an den Nachmittagen vorbei und leistete der Senhora im Garten Gesellschaft.

Die Senhora liebte die Kinder in der Nachbarschaft. Sie sprach mit allen liebevoll, fragte nach wie es ging in der Schule, was sie gerne machten, was sie so spielten. Sie schenkte den Müttern gerne Blumen. Es war schon fast schwierig am Haus der Senhora vorbei zu gehen ohne danach nicht irgend welche Tulpen, ein kleines Sträusschen oder ein paar riesige rosarote Rosen mit nach Hause zu tragen.

Heute ging ich am Haus der Senhora vorbei und fühlte sogleich einen Schmerz in der Brust. Es tat weh diesen blühenden Garten zu sehnen ohne nicht auch darin die freundlich lachende, elegant gekleidete und mit gekrümmten Rücken gehende Senhora zu sehen. Sicher hätte sie gerne und mit Stolz ihre ersten Frühlingsblumen gezeigt. Mehr noch aber schmerzte der Gedanken, weit weg von meiner Grossmutter zu sein, mindestens solange ihr die Alzheimer-Krankheit noch eine guten Teil des Gedächtnis lässt. Wer weiss, wie lange sie noch einigermassen klar im Kopf ist.

Den Garten ohne die Senhora zu sehen erinnerte mich auch daran, dass ich nicht in der Nähe meines Vaters sein konnte, als er einen schweren Autounfall hatte. Auch nicht, als er später einen Hirnschlag hatte. Auch nicht danach, als er für Tage im Spital lag und fast gestorben wäre. Ich war auch nicht bei meiner Mutter, als diese anfing ins Alter zu kommen. Ich war nicht in der Nähe, als meine Freundin ihr Kind bekam oder das Kind einer anderen Freundin krank wurde, auch nicht, als beste und jahrelange Freunde jemanden brauchten. Ich war auch nicht in der Nähe, als andere irgend etwas feierten. Ich teilte keine Freuden mit ihnen, umarmte niemanden, war nicht einmal mit ihnen ein paar Tage im Jahr zusammen.

Leben fern der Heimat wird wohl für alle etwa so sein und darum möchte wohl auch jeder irgendwann in seinen Träumen wieder zurück nach Hause. Ich kenne keinen Brasilianer, der nicht davon träumt später einmal das halbe Jahr in Brasilien zu leben, vorzugsweise im europäischen Winter und die andere Hälfte des Jahres hier in Europa zu verbringen.

Auch wenn man eine neue Familie gründet, neue Freundschaften schliesst, man lässt ein anderes Leben zurück und damit alle die, die daran teil nahmen. Die Erinnerungen gleichen einem Film, manchmal klar und deutlich, manchmal verschwommen. So wie das Leben in der Gegenwart. Es ist einfacher wegen der Senhora zu weinen, als wegen der Grossmutter, sonst würde es wohl zu schwierig werden.

(*Wir nannten die alte Dame stets: “a Senhora das rosas”. Senhora kann mit Dame übersetzt werden, im Wort “Dame” findet sich aber nicht der Respekt, der im Wort “Senhora” steckt und damit den älteren Menschen gegenüber entgegen gebracht wird.)

 

 

 

 

 

 

2 Responses to “Estrangeiro”

  1. Myrna Häfeli March 31, 2012 at 9:31 pm #

    Claudia,

    Gostei muito deste seu post!
    Primeiro pela estória interessante sobre a Senhora, que apesar da idade avançada ainda trabalhava no jardim. E pelo jeito, não devia ser daquelas pessoas ranzinzas que fazem cara feia para as crianças e que preferem evitar contato com os vizinhos! Devia ser mesmo uma pessoa especial!
    E depois me identifiquei muito com a situação de estar aqui e não poder estar perto das pessoas queridas no Brasil, nos momentos bons ou ruins. É verdade, deixa-se uma vida pra trás e tudo o que fazia parte dela. Mas fazendo um balanço destes últimos 10 anos que estou aqui, sinto que apesar da distância e da falta que as pessoas me fazem, tenho conseguido ser feliz! Abraço

    • thewettingenpost April 1, 2012 at 7:21 am #

      Oi Myrna! Obrigada pelo comentário!
      Não é? Deixamos para trás e somos deixados para trás também. Sempre penso no imigrante mais “ferrado”… por um lado ele deve ter deixado uma situção bem pior para trás, por outro, tem que matar um leão por dia… se virar mesmo e ainda por cima se sentir “medido” de baixo pra cima o tempo todo…
      Temos sorte de não passar por isso! Podemos ficar elocubrando (feito eu) e ficar só na saudade!
      Um dia precisamos marcar um café, né?
      Beijo

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