Amor de Carnaval não sobe a serra

20 Feb

Durante muitos anos da infância eu tive três amores: O Moe dos Três Patetas, o Dean Martin e o Elvis Presley. Quando eu ainda amava o Moe, gostava do Carnaval por causa da fantasia. Era sempre a mesma, só mudava o tamanho: uma saia de tiras de plástico e um colar de flores. Havaiana. Ou então as fantasias de papel crepon do banho da Dorotéa em Ilhabela. Dessas eu nunca gostei muito, rasgavam fácil, eram esquisitas mas pelo menos eram fantasias. Eu ía nos desfiles porque, primeiro, era obrigada e segundo, gostava de sair do mar com o cabelo tingido pela tinta que escorria do papel.

Mas então os anos passaram e a fantasia de havaiana não convinha mais ao corpo que dava os primeiros sinais de puberdade já todos de uma vez só. O banho da Dorotéa foi perdendo totalmente a graça e foi posto de lado assim que a carta branca foi dada para não participar mais. O que interessava agora eram as matinês do Clube Caiçara de Ilhabela. A fantasia de havaiana foi substituída pela de odalisca. Aquilo era um sonho: bustiê de tecido metalizado, calça bufante transparente e véu na cara. Tudo amarelo como se fosse ouro, essa era a idéia.

Nos bailes, as crianças grandes e os adolescentes pequenos ficavam horas andando em círculos, jogando confete e serpentina nos outros. A cereja do bolo era o concurso de fantasias que acontecia em cima de um palquinho por onde desfilavam piratas, outras odaliscas, sereias e muitas princesas com um número grudado na roupa enquanto um adulto falava num microfone que só emitia som no talo ou quase inaudível.

No ano da fantasia de odalisca amarela eu conheci o amor. Amorzinho. Ele era lindo. Olhos azuis, cabelos loiros e uma cabeça completamente desproporcional com o corpo. Achei que lembraria o nome dele pelo resto da vida mas hoje não sei nem se ele chamava Cadú ou Cadô ou Esquindôlelê. O nome de verdade, nunca soube, com certeza Carlos Eduardo ou um pomposo Carlos Edoardo.

Cadú ou Cadô passava o dia dando pinta no barco da família ancorado no Yatch Club. Ele ficava o tempo todo com a irmã, uma adolescente linda, chata pra caramba. Foi assim que eu o conheci: a irmã chata era amiga da minha amiga. Enquanto eu pescava no pontão, Cadú ou Cadô passava com os cabelos ao vento na lancha e dava tchauzinho. A irmã só dava uma risadinha. Final de tarde nos encontravámos na sorveteria e conversávamos sobre nada, íamos e voltávamos na mesma rua mil vezes. À noite, eu ficava na cama lembrando do dia.

Aquela fantasia que parecia um sonho foi finalmente usada em público. Por que em casa já era usada todo dia na frente do espelho desde que fora comprada antes das férias em São Paulo. Me arrumei toda. Fiz um pega rapaz grudado na testa igual ao da Julia Matos de Dancin Days mesmo que já um pouco fora de moda. Pela primeira vez passei lápis preto nos olhos e um blush em bastão da minha mãe que me deixou com cara de Carnaval. No salão todo mundo se espremia pulando com “ olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que ele é?” e gritando bem alto “BICHA!”. “ O Balancê, balancê, quero dançar com você, entra na roda menina pra ver…. o balancê, balancê”. As serpentinas faziam um emaranhado que era desfeito à tapa pelas crianças.

Eu pulava feito louca mas com cuidado pra não esbarrar muito nos outros e perder a maquiagem de tijolo da cara grudada no véu de odalisca. De repente alguém segurou na minha mão e começou a dar as voltas no salão ao meu lado. Nunca nenhum menino tinha encostado em mim, muito menos segurado na minha mão. Não conseguia nem olhar pro lado direito. Ele usava um tapa olho de pirata e tinha um brinco da mãe na orelha. Fiquei paralisada por uns instantes, o coração bateu na garganta e por pouco não vomitei. O resto do baile todo foi assim. Andamos quilômetros em círculos pelo salão sem a coragem de olhar para o lado só sentindo as nossas mãos se comprimindo. O coração batia tão forte que dava tique nervoso na pálpebra. Tremia o olho, tremiam as pernas, tremia o coração. A sensação era a melhor do mundo.

Suspirei com essa lembrança todas as noites durante quase um ano. Esqueci do Moe, do Dean Martin e do Elvis para sempre. Quando precisava ser feliz, fechava os olhos e pensava naquelas mãos apertando as minhas.

O tempo passou. Quando teve Carnaval de novo, já não achava tanta graça no baile e a fantasia de odalisca não passava mais nos quadris. Ainda vi Cadú ou Cadô algumas vezes mas…. sei lá… comecei a achar que a cabeça dele estava maior ainda. Não olhava mais para ele e nem ele para mim. Virou memória seletiva. E eu nunca mais pisei num baile. Nenhum daria para comparar com aquele.

Während vielen Jahren meiner Kindheit hatte ich drei grosse Lieben: Moe von The Three Stooges, Dean Martin und Elvis Presley. Solange ich Moe liebte, liebte ich wegen der Kostüme auch den Karneval. Ich trug stets das gleiche, es änderte sich nur die Grösse: einen Rock aus Plastikstreifen und einen Blumenkranz um den Hals: eine Hawaiianerin. Oder dann die Krepp-Kostüme für “das Bad der Dorotéa” (Erklärung: ein Anlass für Kinder, wobei alle Kinder über dem Badkleid die gleiche farbige “Papierverkleidung” tragen und am Anlassende dann zusammen ins Meer gehen. Die Kostüme lösen sich auf und das Meer färbt sich in allen Farben) auf der Ilhabela. Diese Verkleidung liebte ich aber nie sonderlich. Sie riss leicht und sah seltsam aus, doch waren es zumindest Verkleidungen. An den Umzügen nahm ich aus zwei Gründen teil: Erstens war es an den Küsten eine Art Pflicht und zweitens mochte ich die nassen farbtriefenden Haare, wenn wir nach dem Bad im Meer wieder an Land gingen.

Die Jahre vergingen und die Verkleidung als Hawaiianerin passte nicht mehr zu einem Körper, der die ersten Signale einer Pubertät zu zeigen begann. Das Bad der Dorotéa verlor seinen Reiz gänzlich und ich entschied nicht mehr daran teil zu nehmen. Nun wurden die Nachmittagsveranstaltungen im Club Caiçara der Ilhabela interessant. Die Verkleidung als Hawaiianerin sollte durch dasjenige einer Odeliske (hier eher arabischen Bauchtänzerin genannt) ersetzt. Das war ein Traum: ein Bustier aus metallisch glänzendem Gewebe, durchsichtige Flatterhosen und einen Seidenschal im Gesicht. Alles in gelb, als wäre alles aus Gold gemacht.

An den Bällen gingen die grösseren und kleineren Kinder stundenlang im Kreis und bewarfen sich gegenseitig mit Konfetti und Luftschlangen. Der süsse Höhepunkt war der Kostümwettbewerb, der auf einer kleinen Bühne stattfand, worüber Piraten, andere Bauchtänzerinnen, Meerjungfrauen und viele Prinzessinnen desfilierten, alle mit einer aufgeklebten Nummer, während am Mikrofon ein Erwachsener sprach, dessen Stimme wegen dem Krach oder der enormen Lautstärke kaum zu verstehen war.

Im Jahr der gelben Odeliske lernte ich die Liebe kennen. Die kleine Liebe. Er war schön. Blaue Augen, blonde Haare, mit einem Kopf, der von den Proportionen so gar nicht zu Körper passen wollte. Ich dachte, ich würde seinen Namen mein Leben lang nie wieder vergessen, doch heute weiss ich nicht einmal mehr, ob er Cadú oder Cadô oder Esquindôlelê hiess. Seinen richtigen Namen erfuhr ich nie, wohl Carlos Eduardo oder pompöser: Carlos Eldorado.

Cadú oder Cadô verbrachte die Tage mit Anstreichen der Familienjacht, die im Yacht-Club vor Anker lag. Er war dauernd zusammen mit seiner Schwester, einer hübschen aber äusserst nervigen Adoleszenten. So habe ich ihn auch kennen gelernt: die impertinente Schwester war die Freundin meiner Freundin. Während ich auf dem Pier sass und fischte, brauste Cadú oder Cadô mit wehendem Haar auf seinen Motorboot vorbei und winkte zum Gruss. Die Schwester schenkte mir höchstens ein Lächeln. Am Ende des Nachmittags trafen wir uns, kauften am gleichen Ort Eis und sprachen über belanglose Sachen. Oft gingen wir die gleiche Strasse tausendmal auf und ab. In der Nacht lag ich dann im Bett und schwelgte in den Erinnerungen des Tages.

Meine Odeliskenverkleidung wagte ich dann schlussendlich auch in der Öffentlichkeit zu tragen. Zuvor zog ich sie nur zuhause an und betrachtete mich im Spiegel. Ich machte mich zurecht: Auf der Stirn eine Locke, wie die von Julia Matos aus Dancin Day, einer damaligen Novela, wenn auch schon etwas aus der Mode gekommen. Zum ersten Mal benutze ich schwarzen Lippenstift für unter die Augen und etwas flüssigen Blush von meiner Mutter, womit ich dann geschminkt war für den Karneval. Auf dem Karnevalsball, der meist prall gefüllt war, sprangen wir auf und ab und sangen und schrien die damaligen brasilianischen Hits oder mindestens die Strophen, die alle kannten. Konfetti und Papierschlagen flogen durch die Luft und Kinderhände zerschlugen schlussendlich das entstandene Wirrwarr der Papierschlangen wieder.

Ich tanzte wie eine Wilde und dennoch achtete ich darauf nicht mit anderen zusammen zu stossen oder mein Make-up am Gesichtsschleier zu verschmieren. Plötzlich fasste dieser Cadú oder Cadô meine Hand und begann fortan an meiner Seite durch den Saal zu tanzen. Nie zuvor war jemand mit mir zusammen gestossen oder hätte gar meine Hand gehalten. Ich wagte es gar nicht erst mich nach rechts umzudrehen. Er trug eine Augenklappe eines Piraten und einen Ohrring seiner Mutter in seinem Ohr. Ich war für einen kleinen Moment wie gelähmt, mein Herz schlug mir bis zum Hals und fast wäre mir schlecht geworden, doch wir blieben zusammen, bis zum Ende des Ball. Wir sind wohl Kilometer Hand in Hand gegangen. Beide wagten es nicht, sich zur Seite zu drehen. Die Hände aber, die spürten wir. Mein Herz schlug derart stark, dass ich vor Nervosität mit den Augenlidern zu zittern begann. Es zitterten die Augen, die Beine, es bebte das Herz. Das schönste Gefühl auf der Welt.

Fast ein Jahr lang seufzte ich bei der Erinnerung an diese Nacht. Moe, Dean Martin und Elvis hatte ich für immer vergessen. Wollte ich glücklich sein, schloss ich die Augen und dachte an diese Hand, die die meinige drückte.

Die Zeit verging. Als es wieder auf die Fasnacht zu ging, konnte ich diese Vorfreude in mir nicht mehr so richtig finden und die Odeliskenverkleidung passte nicht mehr über meine Hüften. Noch immer sah ich Cadú oder Cadô, aber … nun ja … es schien mir, als sei sein Kopf noch grösser geworden. Ich begann mich nicht mehr nach ihm umzudrehen und er sich nicht mehr nach mir. Es wurde zu einer selektiven Erinnerung, nur das Gute blieb. Und bis heute bin ich nie wieder an einen Karnevalsball gegangen. Keiner hätte sich wohl auch mit dem letzt besuchten messen können.

 

 

 

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